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Raiz de todos os sons




Esta semana fiquei carente comigo mesmo de blogar poucos asanas. E agora mesmo ainda não vou falar deles mas sim da raiz dos sons e do núcleo de todas as palavras e mantras. Virou moda e ficou (quase) popular nas tatuagens e impressos em geral a forma clássica do Pranava Mantra OM. Mas talvez tantos que o usam como uma estampa não sabem o que ele representa.
Composto de três letras A-U-M significa o todo ou aquele que é indivisível.



Letra A – o estado de vigília
Letra U – o estado de sonho
Letra M – o estado de sono sem sonhos



E ainda representa a criação, a sustentação e a destruição.
A-U-M representa também os três tempos: passado, presente e futuro, sendo que o símbolo inteiro representa toda a criação do universo que está além do tempo. Podemos experimentar esta definição “além do tempo” não só quando lemos um pouco sobre astronomia e temos que entender que uma viagem pode demorar anos luz de um ponto a outro de uma galáxia e que anos luz não cabe no meu raciocínio temporal e lógico. Ou experimentamos outras dimensões do tempo quando cochilamos por minutos e ao acordar temos a sensação que dormimos muito tempo ou horas. Quando sonhamos o tempo se configura ainda de outra forma. O tempo, em resumo, é uma inegável realidade biológica e é também um estado de consciência.


Além da prática individual sempre tive a oportunidade de praticar japa – a repetição do mantra - com outras pessoas ou em grandes grupos de yoga pelo mundo afora, em 1973 participei de algo em torno de 300 a 400 pessoas que,se me lembro bem, repetimos o mantra OM longo por várias horas, eram pessoas de várias partes do mundo, os efeitos foram muito intensos não só para mim, como pude observar, mas para um grande numero de pessoas no final daquele satsang – reunião de pessoas para a pratica do yoga -. Foi como se dissolvessem as barreiras desta existência limitada onde o ego cuida dia e noite para me garantir a sensação de que eu sou eu, você é você, e o planeta terra é o planeta terra. E se dissolveram! As barreiras e dissolveram. Foi inesquecível! Tive a certeza que eu não sou eu, você não é você e somando a natureza que naquela noite de verão envolvia a todos nós, com o seu cheiro de mar, de plantas, de calor e todos e tudo éramos uma coisa só uma única unidade, sem uma fagulha de separação.


Salve o mantra OM!!!



Sandro Bosco às 18h52
GURUPURNIMA

 

Hoje é um grande dia na tradição hindu pois é a lua cheia do guru, o Gurupurnima .
A relação guru e discípulo eu considero para mim uma das facetas mais difíceis de um ocidental assimilar da cultura indiana.
Basta ver o quanto se banalizou o termo guru nas diversas línguas ocidentais.
Na Índia a palavra Guru vem da composição das sílabas gu e ru e significa “aquele que dissipa as trevas” ou aquele que “traz a luz à sombra”.
Na Índia costuma-se chamar de Guru o professor de música, de canto, de dança, de yoga ou das artes e filosofias em geral chama –se também de Guru aquele mentor espiritual.
Se precisarmos construir uma casa devemos procurar um engenheiro, se a questão é a saúde, um médico, com as leis, um advogado, e assim por diante. No enfoque espiritual buscar um Guru é encontrar o que liberta a sua consciência do conhecido para os reinos do desconhecido, é o mentor espiritual sem o qual não é seguro ou é infrutífero mergulhar na jornada espiritual.
Os textos antigos nos alertam como identificar um verdadeiro Guru e como reconhecer um falso Guru.
Na antiguidade quando os vedas se estabeleceram como a fonte de conhecimento iniciou-se a tradição do Gurupurnima que continua através dos tempos.
Escolheu-se o dia da lua cheia (purnima) do mês de Ashadha por ser o mais pleno e mais brilhante de todos os purnimas do ano. Esse dia ficou conhecido como "Gurupurnima" - a lua cheia do Guru.
É por várias razões que um aluno ou discípulo celebra este dia com homenagens, pujas – oferendas - , reverências e celebrações nesta esta lua cheia especial a mais profunda das razões é um sentimento poderoso; o sentimento de gratidão.
Quando sentimos gratidão pela luz do Guru temos o reconhecimento no coração.
Quando reconhecemos a importância deste mentor ou Guru sentimos a confiança inquebrantável nos seus ensinamentos.
Os ensinamentos é a riqueza do Guru, pois é o que traz luz as nossas sombras.
Quando temos a experiência e constatação que estes ensinamentos nos transformam eles se tornam verdadeiros e o discípulo pode selar esta relação com o voto de obediência e respeito.
Um ótimo Gurupunima para você!




Sandro Bosco às 10h37
Obediência

Obediência

 

 

Eknath Maharaj foi um grande santo yogue da Índia. Conforme os hábitos indianos muitas pessoas procuram seres iluminados, como Eknath, em busca de conforto psicológico, cura, orientação no caminho espiritual ou esclarecimentos para a sua prática de yoga. Um dia uma mulher pobre,  discípula dele, pediu para que ele cuidasse de seu filho que era uma criança que exigia atenção especial, pois tinha alguma deficiência mental, Eknath concordou e como sempre oferecia as pessoas que o visitavam o purampoli, um docinho típico daquela região, tratou de ensinar ao jovem menino como preparar e assar os famosos docinhos. Os anos passaram e o menino aprendeu tão bem que com o tempo ele ganhou naquele ashram (a casa do guru, comunidade espiritual) o apelido de Purampoli.
Um dia um homem procura Eknath e dentre suas questões existenciais indaga ao Guru sobre a obediência aos comandos do mestre na relação Guru e discípulo. Eknath interrompe e chama o jovem Purampoli e o manda preparar purampolis para a visita mas sussurra a ele que colocasse bastante sal. Passa-se o tempo do prepara e cozimento e ele volta com uma bandeja recheada de purampolis. O homem que questionava sobre a qualidade e intensidade da relação guru / discípulo não consegue engolir e cospe os purampolis, reclamando do sal para um esperado e delicioso docinho. Eknath entra então com o ensinamento preciso:
- Há 10 anos este jovem cozinha purampolis e pela primeira vez eu mandei que os preparasse com sal no lugar do açúcar, e ele sem nenhuma hesitação ou dúvida fez o que eu mandei.
Esta é a integridade e fidelidade necessária na  obediência mestre / discípulo!
(veja outra história de Eknath Maharaj que foi postada neste blog em 25 de junho último)

Sri Rmakrishna de Calcutá dizia:

“O discípulo  jamais deve criticar seu Guru. Deve obedecer à risca suas palavras. Diz um verso bengali:
- “Mesmo que eu veja meu guru na taverna ainda assim ele é meu guru é o sagrado Raí Nityananda”

 

Eknath Maharaj(1528-1609): Santo poeta ,foi um chefe de família que viveu no estado de Maharashtra. Foi um dos mais ilustres discípulos de Janardan, um grande santo indiano. Compôs centenas de poemas devocionais chamados abhangas. Foi expulso da casta dos bramânes por sua intenção de acabar com a intocabilidade, originada nos sectarismos de castas existentes na Índia. Na última parte da sua vida, tornou-se muito conhecido por sua poesia espiritual e seus comentários sobre as escrituras sagradas da Índia. Ao escrever sobre temas religiosos na línguagem popular, Eknath promoveu o renascimento das verdades espirituais entre o povo comum.

 



em Parábolas e compartilhar
Sandro Bosco às 10h13
Para professores e alunos de yoga

Para professores e alunos de yoga

Akbar e o menino sábio

Conta-se que um dia Akbar chamou seus noves sábios. Estava muito zangado e disse:
 - Vocês estão aqui e o povo afirma que são hoje em dia os homens mais sábios do mundo. Mas eu não aprendia nada com vocês. Qual é o problema?
  Vocês estão aqui e eu continuo o mesmo, então o que fazem afinal?
Uma criança viera com um dos sábios, ela queria ver a corte. E riu. Os sábios estavam em silêncio e a criança riu. Akbar disse
- Por que está rindo? Isto é um insulto à corte! Seu pai não lhe ensinou boas maneiras?
  A criança respondeu:
- Estou rindo porque estes nove sábios estão em silêncio e eu sei por quê. Eu sei por que você não foi capaz de se beneficiar com eles.
  Akbar olhou para o rosto da criança – muito inocente você pode ver uma profunda antiguidade em seus olhos – porque nenhuma criança é uma criança. Ela vive e teve muitas experiências. Traz consigo todo o conhecimento de todas as suas experiências passadas. Akbar disse:
- E você, pode me ensinar alguma coisa?
A criança respondeu:
- Sim!
- Então ensine!
Disse a criança:
- Venha aqui onde estou sentado e eu sentarei no trono. E, então, você perguntará como um discípulo, não como mestre.
  E dizer que Akbar entendeu. Aqueles nove sábios haviam sido absolutamente inúteis. Ele não pôde aprender, não porque eles não pudessem ensinar: Eles podiam fazê-lo, mas ele não estava pronto, não estava receptivo, não estava humilde o bastante.
  Conta-se que se sentou embaixo e a criança sentou-se no trono e disse:
- Agora pergunte como discípulo, não como imperador:
  Akbar não perguntou coisa alguma. Contam que ele agradeceu à criança, tocou seus pés e disse:
- Não há necessidade de perguntar: Simplesmente por estar sentado numa atitude humilde a seus pés, eu aprendi muito.

(versão narrada pelo mestre Osho)


Esta história é ótima para nós professores de yoga refletirmos no assunto e para nunca estacionarmos em uma posição de soberania e sim sempre ficarmos com o espírito aberto para poder viver o momento presente e aprender com os alunos e mesmo com os iniciantes.
Por outro lado se um aluno tem a atitude de Akbar  estará fadado a nada aprender do seu professor  mesmo se diante do maior dos mestres será infrutífero.
B.K.S. Iyengar diz: “É muito difícil ensinar a um aluno que se  acha superior ao mestre”.

 



em Aprender e ensinar
Sandro Bosco às 09h47
Vasishtasana - variação simplificada

Vasishtasana - variação simplificada

 
Este asana é em homenagem ao sábio e vidente Vasishta autor de vários hinos védicos particularmente do sétimo Mandala do Rig Veda.
Benefícios - fortalece os punhos, exercita as pernas e traz firmeza para a lombar e a região do coxix.
 



em Saúde: corpo e mente
Sandro Bosco às 17h05
Satyagraha

Muito bom o nome da operação da Polícia Federal que fez notícia semana passada:
- Satyagraha.
Depois de um século de dominação inglesa a Índia foi libertada através da austeridade – tapas – e determinação de um yogue, Gandhi.
 Mahatma  (grande alma) Gandhi baseou-se em dois ensinamentos yogues descritos no decálogo do Yoga Sutras de Patanjali (260 a.C.).
• Ahimsa – não violência e tolerância
• Satya –verdade
Ou Satygraha – o apego a verdade.
Li esta semana a tradução em algum veículo de comunicação da palavra sânscrita satyagraha como clareza e transparência, quando citava a última operação bem sucedida da polícia federal. Para um estudante e praticante de yoga, passa a ser uma experiência do cotidiano perceber como as palavras são mantras e mantras são palavras de poder. Achei inspirado por parte da polícia, escolher este nome, quase um mantra, para uma operação sua, palavra esta que tornou-se um lema e um princípio e norteou a ação que levou Gandhi a inspirar a Índia, através da resistência pacífica, a liberta-la do jugo inglês.
Nós humanos nos apegamos neste planeta facilmente a tudo, tanto a  dor quanto ao prazer, mas é uma tarefa poderosa apegar-se a verdade.
Apegar-se a verdade nos leva irremediavelmente a reflexão e questionamento do que é a verdade?
Apegar-se a verdade afia a espada do discernimento – viveka -. Aguça-nos a distinguir oque tem a ver com o meu propósito mais profundo e  autêntico com o que é distração da minha mente ou maya  - a deusa da ilusão.
O máximo cuidado é pouco na expedição interior para vislumbrar a luz da verdade.
O mais perigoso ou vulnerável nesta jornada interior é acreditarmos que estamos desvendando a verdade quando nossa lamparina que ilumina nossa busca são apenas os cinco órgãos dos sentidos.
Para finalizar deixo a reflexão na conhecida parábola do “elefante e os cegos”, também conhecida como os “cinco cegos” ou ainda “o elefante na casa escura’. Li ela a primeira vez contada pelo meu querido Sri Ramakrishna de Calcutá mas, originariamente, talvez ela seja do sufismo.
 “ Quatro cegos foram ver um elefante. Um lhe tocou a perna e disse :
 - O elefante é como uma coluna, um pilar.
O segundo tocou a tromba e disse:
 - O elefante é como uma clava grossa.

O terceiro tocou a barriga e disse:
 - O elefante é como um túnel.
O quarto tocou a orelha e disse:
 - O elefante é como um abano.
O quinto cego pegou o rabo e disse:
 - O elefante é um espanador
Mas um transeunte que a tudo assistia, sentenciou:
 - Nenhum de vós viu o elefante. O elefante não é um pilar mas suas pernas são como pilares. Não é um túnel, mas sua barriga é como um túnel. Não é um abano mas suas orelhas são como abanos. E sua tromba não é uma clava mas é como uma clava grossa.
E seu rabo não é um espanador mas serve como um.



Sandro Bosco às 16h20