Livre! mas no presídio

Quando eu tinha 19 anos e estava começando a ensinar yoga uma amiga me convidou para dar aula no presídio do Carandiru na ala feminina.
Ela estava indo toda a semana e estava difícil. Eu aceitei, sempre gostei de desafios.
Revezávamos e deu certo, faz tempo, mas acho que durou mais de um ano.
Dávamos aula em uma capela. Havia uma porta que separava o altar do salão e nos separava tornando um espaço vazio e com um enorme pé direito num grande salão de yoga pois não havia bancos nem cadeiras. Minha voz ecoava, era imponente. Era o maior espaço que eu tinha dado aula até então.
Havia naquela época nos idos da década de setenta presas política que me pareciam que entendiam melhor o que eu queria ensinar. Todas elas entravam, quando pela primeira vez, e me olhavam como um ser estranho que estava lá para ensinar, o que mesmo??
Elas traziam para a aula no rosto, nos gestos, no olhar, nas couraças, nos movimentos e na vibração um peso gigantesco da situação do cárcere que incrivelmente se dissolvia no final da aula.
Yoga é união da mente com o corpo, dos sentidos com o momento presente, a sensação de unidade traz expansão e isto era tudo que aqueles corpos sem movimento, atroviados do medo, da incerteza do espaço pequeno da prisão, das ameaças do pequeno espaço físico era tudo que elas necessitavam.
Aquilo tudo me lembrava a situação de Sri Aurobindo, um guru indiano, que eu estudava e praticava na época o Yoga Integral, que foi preso e encontrou a iluminação na prisão.
Recomendo este tipo de experiência a todos que se propõem a ensinar yoga. Você entra em outros universos, outros mundos e vai ter que se desdobrar na sua comunicação se quiser o mínimo de satisfação de sentir que esta ensinando alguma coisa. Marcelo Tas me disse uma vez que achava que a comunicação mais fina é a do professor e aluno, e é verdade. E foi verdade naquele presídio!
Uma presa política depois de liberta foi me procurar no centro de yoga que eu ensinava yoga na rua maranhão, aonde até hoje é o Centro Médico Maranhão. Foi uma conversa única!
Ela trazia um livro para me mostrar do Alan Watts que explicava da entrada do pensamento oriental no ocidente. Seu rosto era um misto de assustada e grata. Compartilhou a ilusão de estar livre agora e que o yoga lhe trouxe o sabor de estar livre na prisão.
Homicídios, furtos, rebelião, política, as procedências daquelas presas eram muitas ou todas e me batia a sensação que carrego até hoje:
O yoga é para todos! A liberdade está dentro de cada um.