Blog do Yogue

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Sobre o blog

A idéia deste meu blog é trazer o mundo do yoga e da meditação mais perto do seu cotidiano.

Adoro responder e investigar sobre este assunto, pois é uma forma preciosa de conhecer mais este universo.

Este nome “blog do yogue” é porque vamos aproveitar a sabedoria de muitos e muitos yogues do passado e do presente para rechear e iluminar o nosso dia a dia. Yogue para quem não sabe é um sábio. E mais propriamente é aquele que chegou lá! Chegar lá no yoga é uma das muitas coisas a se saber...

22/07/2008

Como uma onda no mar

Como uma onda no mar

No Shivaísmo do norte da Índia existe um ensinamento precioso chamado samarasa. Traduzido por "visão equânime" tocamos com esta tradução apenas a ponta do iceberg do ensinamento.
Sama é de fato a igualdade  e Rasa é o sabor o néctar existente na vida e nos momentos que compõem a vida que normalmente não conseguimos captar.
A mente furta de você todo o tempo a riqueza de perceber o presente. Você passa ao lado do seu melhor amigo e não o vê, pois está com olhos abertos, mas pensando, pensando, pensando ...
Jesus dissse:
 - Eu passarei ao seu lado e você não me reconhecerá.
A diferença da grande maioria de seres humanos e de um ser liberto que alcançou o estado mais elevado no caminho do yoga é que ele esta presente aqui e agora e você não. Ele olha e enxerga você e por isto sente você na sua totalidade. Você olha e o enxerga por segundos e logo a sua mente rouba de você o poder transformador do presente.

 A mente no presente, no aqui e agora dissolve o stress e traz saúde física e mental.

Por isto a vida as vezes parece enfadonha porque sempre imersos nos pensamentos a vida parece uma mesmice. Quando você pratica Samarasa você alimenta em você, no ouvir, no escutar, no sentir, no cheirar o frescor do novo. Samarasa é perceber o frescor de lembrar de saber e viver a verdade de que cada momento apresenta algo novo. É como a canção de Lulu Santos e Nelson Mota naquele verso que diz, “nada do que foi será igual ao que a gente viu a um segundo...”, não há uma onda do mar igual a outra e nisto está Samarasa. Quando você pratica yoga, se você pratica para você mesmo, ou se você oferece cada minuto da sua prática ao criador descobre o sabor de Samarasa, como quando você saboreia uma deliciosa fruta madura.
Uma historia do Zen narrada por D.T.Suzuki que conta que “Mestre e monge andavam pelas montanhas, quando o mestre perguntou”:
 - Sentes o aroma do loureiro ?
 - Sim eu sinto – disse o monge.
 - Então nada tenho a te ensinar.

Por Sandro Bosco às 19h20

Você pensa como respira

Você pensa como respira


No yoga aprendemos a fazer os asanas – posturas -  usando o tônus a flexibilidade, a força de vontade e a concentração no que se está fazendo.
Nos pranayamas  - controle e expansão do prana, energia vital, através da respiração  - reaprendemos que não somos nós que fazemos o pranayama devemos comanda-lo sem comanda-lo. Assim os mesmos ingredientes que funcionam para o asana não funcionam aqui. Pranayama requer o abrandamento do “eu faço” passa-se para um outro estágio de percepção:
 - eu sinto que estou respirando ou que estou sendo respirado.
 A respiração é uma das ações involuntárias que pode se tornar voluntária agora e a qualquer momento daí nossa dificuldade de perceber que está respirando e não comanda-la, mas  quando isto acontece você começa a entrar no reino da meditação no estado consciente sem pensamentos.
 O Hatha Yoga Pradipika texto clássico escrito pelo Yogue Swatmarama, possivelmente escrito entre 600 e 1500 d.C. XIII afirma: “Prana Chitta vrittti nirodha", que significa, "assim como você pensa você respira” ou “se você acalma a respiração você acalma as ondas mentais”.
A respiração está intimamente ligada a nossa mente consciente e sub-consciente daí a dificuldade de percebe-la. È realmente poderoso nesta condição humana que vivemos conhecer melhor o processo da respiração. Não me refiro (somente) ao processo fisiológico mas conhecer nesta dimensão, siginifica perceber as flutuações e bruscas alterações dela durante o dia e durante a sua prática do yoga.
Quando o meu primeiro filho nasceu o parto se deu em casa  e estavam juntos conosco o  obstreta e uma ajudante - ver livro "Como vai ser o meu parto" do Dr.Jorge Hodick editora Mercurio – ao sair do ventre materno o colocamos no colo da mãe para que o embalar da respiração dela lhe mantivesse o sentido de proteção e o embalasse para o seu novo estagio de respiração dali a instantes. Depois de alguns minutos o médico me deu a tesoura para que eu cortasse o cordão umbilical, eu o fiz. Foi inesquecível aquele instante, foi eterno, perceber aquelas primeiras curtas inspirações daquele “serzinho” recém nascido até que seu pulmão se enchesse, era o início da longa jornada de puraka e rechaka, inspiração e expiração. Estava diante da magnitude da natureza, da sabedoria natural da sobrevivência, o momento divino da primeira inspiração, o início da longa dança da mente, a longa dança da consciência começava, puraka e rechaka, inspiração e expiração.
 No yoga é dito que o tempo de vida de uma pessoa compõe-se do numero de puraka e rechaka. Animais longevos como as tartarugas respiram devagar, tem poucas respirações completas por minuto, outros de vida curta respiram rapidamente e muitas vezes por minuto.
Dez anos depois, quando meu pai morreu eu estava ao seu lado na casa dele com uma grande amiga médica. Novamente o grande momento da respiração, do ultimo rechaka, expiração, nesta vida. Novamente para mim marcante, forte e poderoso, a impermanência da vida se revelava a minha frente, a dança de puraka e rechaka terminava ali a minha frente. Experiências como estas me trouxeram mais próximo a consciência do pranayama, a dança da respiração que rege a dança da mente, rege a dança da consciência, a dança de chitti shakti, a energia espiritual da consciência onipresente,   minuto a minuto, instante a instante.

Por Sandro Bosco às 09h13

09/07/2008

Hábitos e medos

Hábitos e medos

 

Em nossa prática de yoga com Arun neste último final de semana trabalhamos os hábitos no corpo. Se você nunca praticou yoga saiba que depois de um ano, dois ou dez anos de prática regular você fica cheio de hábitos. Esta é uma das coisas fenomenais de B.K.S. Iyengar  - veja link ao lado - porque como ele é um praticante de yoga assíduo até hoje, com os seus 89 anos de idade, e o seu corpo (físico, mente e alma), ao que parece, é realmente um laboratório para ele mesmo, sem nenhuma relutância, ele está constantemente mudando as formas de fazer os asanas que ele mesmo ensinou em função de novas descobertas de alinhamento do corpo que esta auto pesquisa interior lhe traz.

Arun nos trouxe isto: quebrar os hábitos.

Hábitos nos trazem segurança. Quebrar os hábitos mexe com os medos.
O ilustre Murilo Nunes de Azevedo que comenta o Livro do Tao com exímia lucidez  acende-me a luz do discernimento quando diz “que manter os hábitos nos traz a sensação de permanência frente a impermanência da vida”.

Queremos ter a vida como permanente e a vida nos tem como impermanente e ela nos lembra disto toda hora, minuto a minuto, instante a instante. Não é mesmo?

O Maharishi Patanjali (viveu por volta de 360 a.C. na Índia e deixou como grande legado o Yoga Sutras, 196 aforismos que montam como um manual técnico à liberação) no primeiro, dos quatro capítulos aponta abhineswar como um dos mais poderosos dentre os cinco kleshas – sofrimentos ou aflições humanas – .
Abhineswar pode-se traduzir como o apego à vida, que o Maharish lembra que até o mais sábio dos homens aprisiona-se neste ciclo de vida e morte.

Se o yoga não servir para vencermos nossos medos para que servirá? Há algo mais importante ? Se o yoga não for útil para reconhecermos nossos medos para que servirá?

Qual a função mais nobre?  Existe outra nesta vida?

Hoje cedo tive um periodo de meditação super silencioso, sem esforço, puro deleite. No momento que me dei conta daquele espaço vazio de palavras,de ruídos da mente, veio uma faísca de medo. Pude depois da meditação perceber que aquele momento foi o medo do ego, quando ele não sabe se está vivo ou morto, ele treme ...

Os hábitos repetitivos, as sinapses e sinapses, fecham nossos olhos aos ventos inconstantes da efemeridade da vida.
Volte-se para dentro.
Dedique um tempo por dia sozinho e observe o espaço entre dois movimentos da respiração. Só assim você poderá perceber o espaço entre dois pensamentos. Só assim você poderá perceber que você não é este corpo, nem esta mente, nem estas emoções. Se você puder testemunhar tudo isto ou um de cada vez, você saberá que você é este testemunho e o tempo de prática de “voltar-se para dentro” vai ser a sua escolinha para saber o que é este testemunho interior. Que consistência ele tem?  De que sensação ele é feito? Eu sou ele ou ele é eu?
Shivoham, Shivoham, Shivoham .....
Eu sou este testemunho interior, eu sou este testemunho interior ...

Por Sandro Bosco às 20h34

Sobre o autor

Sandro Bosco

Certificado internacional de Iyengar Yoga. Ensina e pratica yoga e meditação há mais de 40 anos, coordena a escola Yoga Dham. Neste blog compartilha regularmente todas estas experiências.

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